Um texto sobre o Masculino

Um texto sobre o Masculino

Eu sempre fui mais baixo que os outros.

Sempre fui muito menor que quase todos os meninos da minha idade.

Também sempre fui mais fraco. Não tinha tanta força física.

Meus primos gostavam de brincar de luta. Eu nunca gostei.

Eu nunca gostei de bater em ninguém e por isso deixava me baterem para não precisar bater. Até mesmo meus primos mais novos me venciam nessas brincadeiras.

Entramos na adolescência e meu corpo tinha menos pêlo que dos meus amigos.

Eu tinha menos libido e pensava em sexo menos que eles.

Eu gostava de escrever. Eu tinha um caderno onde escrevia. Mas diário era coisa de menina. Então eu escondia na gaveta. Não na primeira, mas na terceira gaveta, embaixo de um monte de pastas, pra não correr o risco de ninguém descobrir.

Todo esse cenário me fez me sentir menos homem, menos macho que os meus amigos.

Some a isso o fato de eu ser meio gago na infância e imaginem o resultado disso na minha relação com as mulheres.

Não conseguia me aproximar, não conseguia chegar em mulheres.

Com isso, demorei para dar o primeiro beijo e para ter a primeira relação sexual.

Minha primeira namorada foi aos 27 anos.

Tudo isso foi moldando um personagem em mim.

Eu precisava beber muito. Bebia todos os finais de semana para conseguir preencher um vazio e para ter coragem de me relacionar com mulheres. Bebia para me tornar mais macho que meus amigos. Bebia mais para dizer que eu aguentava mais.

E a minha fuga era o trabalho. Porque no trabalha eu era bom. Eu me sentia forte e capaz no trabalho. Então me tornei um workaholic. Trabalhava muito. Apenas para ganhar dinheiro e ter prestígio e reconhecimento. O trabalho era minha forma de autoafirmação.

Até que chegou um momento em que meu corpo não aguentou mais. Chegou uma hora que minha alma se cansou, disse “basta!”. A vida me derrubou no chão e me acordou.

Eu despertei.

E após esse despertar eu comecei a me desconstruir. Me desconstruir fez eu acessar sombras e traumas de infância. Como essas que eu descrevi agora. E ao olhar para essas sombras, eu ia me libertando delas.

Eu chorava, como choro agora enquanto escrevo esse texto. Minhas mãos tremem um pouco enquanto tocam as teclas do meu computador, com medo de compartilhar essa minha história.

Ter contato com as minhas sombras, com minha vulnerabilidade, com minhas vergonhas me fez acessar a coragem.

A coragem me deu força.

Força para entrar no meu caminho. Para ocupar o meu lugar. Para fazer o que eu vim aqui para fazer.

Aos poucos eu fui lembrando.

E quanto mais eu lembro, mais coragem eu tenho.

Porque tudo passa a fazer sentido. Porque as peças se encaixam e a vida se manifesta de uma forma perfeitamente mágica. Eu começo a ver que nenhum encontro é por acaso, que nenhuma situação acontece sem ser orquestrada e que todas as pessoas que cruzam meu caminho são mestres a me ensinar.

A me ensinar sobre mim mesmo.

A me ensinar sobre quem sou eu e o que vim fazer aqui.

Mestres a me lembrar de quem sou.

E hoje eu sei.

Sei que não sou nada daquilo que me construi. Não sou aquelas máscaras que usava. Não sou menor que ninguém. Não sou mais fraco que ninguém. Não sou menos homem que nenhum homem. Não sou menos capaz que nenhum ser humano.

Eu acesso o Sagrado Masculino à partir da minha vulnerabilidade. Eu acesso o Masculino à partir do meu Feminino.

Você não precisa fazer nada para provar que você é homem. Você já é. É só se permitir ser.

Se você está lendo esse texto é porque tem um chamado pra você aqui, escondido nas entrelinhas dessas palavras.

Um chamado que não é meu. É da sua alma.

A sua alma quer fazer o mesmo. Quer que você desperte. Quer que você se desconstrua. Quer que você entre no seu caminho e ocupe o seu lugar.

Eu estou aqui para te lembrar de quem você é.

Estamos juntos, como sempre estivemos. Ombro a ombro nessa jornada em busca do nosso espaço. Em busca de nós mesmos. E criar aqui na Terra o lugar que queremos viver.

Comments (15)

  1. Deise
    abr 19, 2017 at 3:43 pm

    Adoro seus textos!! São realmente tocantes e verdadeiros. Gratidão!

  2. Paulo
    abr 19, 2017 at 5:54 pm

    Minha história tem algumas semelhanças.

  3. Jenn Perroni
    abr 19, 2017 at 6:57 pm

    Meu querido homem, amigo, humano… Sou como você, uma humana que despertou a partir do momento em que decidiu olhar para as sombras. Hoje entendo que não poderia ser diferente. Você cura seu masculino vulnerável. Eu curo meu feminino violentado. E essas não são nossas histórias, não poderiam ser. São histórias que aceitamos encenar na divina comédia humana. Que nossas almas aceitaram curar em nome de uma humanidade ferida. Ouço suas palavras e as acolho em meu ventre, e te peço, meu querido, que me guarde no sagrado masculino que te habita

  4. Gisele
    abr 20, 2017 at 8:18 am

    Parabéns pela autenticidade e coragem.

  5. Thiago
    abr 20, 2017 at 9:37 am

    Tanaka, excelente texto quero lhe dizer q me identifico muito com você e toda semana venho aqui dar uma olhadinha pra ver se tem algo novo.

    Meus parabéns pela sua coragem #tamojunto vc tem me ajudado a despertar cada dia um pouco +. Gratidão.

  6. Márcia de Sá Motta
    abr 20, 2017 at 11:20 am

    Gustavo esta jornada é um parto. Eu outro dia entrei numa destas noites escuras do auto conhecimento me perguntando o que estava fazendo onde estava de inúmeras maneiras diferentes e percebi que é a dor do renascimento, onde ainda não consegui fazer todos os movimentos que preciso mas saber já é o início das contrações desta nova vida. E percebi em suas palavras algo tão verdadeiro, que compõe este despertar e observar este lugar diferente da gente que as vezes a gente se vê ao olhar nossa alma no espelho. Muito interessante!

  7. Inácio Carvalho
    abr 21, 2017 at 7:17 pm

    Parabéns pelo acordar, porque nunca é tarde, suas palavras tocam na na alma.

  8. Janyne Sena
    abr 23, 2017 at 10:41 pm

    Tenho me identificado com os seus posts Gustavo, tenho lido muita coisas que me tocam. Essa questão do despertar é algo que ensejo só que são aos poucos que ele vem a tona. Sei de meu propósito, vejo minhas sombras e vejo que elas são essenciais para saber quem eu realmente sou. Tudo é experiência e tudo é válido. Obrigada por ajudar eu e a muitos a descobrir o divino que há dentro de cada um!

  9. TIAGO MARCONDES DA SILVA
    abr 24, 2017 at 4:09 am

    Gratidão por acender a luz aqui dentro da possibilidade de explorar meu sagrado masculino em um mundo tão machista e repleto de abusos.
    Acredito e muito das palavras deste artigo e que possamos ir além…. chegar na alma e fazer com que a descoberta do lado sombra seja um degrau de evolução.
    Gratidão mais uma vez!

  10. Ale Nascimento
    abr 24, 2017 at 7:40 pm

    Parabéns pela coragem de compartilhar suas vulnerabilidades. Ganhamos todos com sua força! Prossiga Gustavo, porque estamos todos juntos! Homens, mulheres, seres humanos que somos! Abraços para vc e para todos os participantes do Sagrado Masculino.

  11. Maria
    abr 24, 2017 at 10:26 pm

    Que linda, esta nudez! Que masculino corajoso!

  12. Maly Motta
    abr 26, 2017 at 10:57 am

    Parabéns pela coragem de se desnudar a fim de ajudar a tantos! Você é um homem corajoso, sensível e exemplar. Felicidades e sucesso.

  13. FABIANA MIRANDA DIAS MIZRAHI
    maio 02, 2017 at 9:26 am

    Sempre me senti diferente de todo mundo e durante anos até a adolescência me sentia “O” patinho feio no mundo… sinto cada palavra sua, reconheço cada linha rsrs…Hoje estou aqui, numa constante busca de evolução, já aprendi muita coisa, conheci, experenciei, evolui muito e sei o qto ainda tenho a evoluir e não só isso, sei que ainda não estou totalmente encaixada em minha missão de vida.. só peço estar sempre atenta aos sinais que me levarão até ele.
    Obrigada pelo trabalho que tem feiro Gustavo! Forte abraço!

    Fabiana

  14. Victor DZ
    jul 30, 2017 at 6:13 pm

    Estou emocionado com o seu texto irmão! LUZZZ luzzz em sua caminhada!

  15. Ana
    out 10, 2017 at 12:29 pm

    Adoro o que manifestas em palavras. Só um ser bonito, que vive mais em amor do que em medo, se expõe desta forma.
    Obrigada,

    Ana

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